Posts Tagged ‘Textos’

Detonando em Bruxelas

outubro 20, 2009

Imagine alguém que deseja abrir um restaurante em Bruxelas, talvez não seja tão fácil encontrar alguém com este sonho, mas existe.

Bem, o cara simplesmente tem que se esforçar muito no conceito do projeto, afinal a capital belga é reconhecida mundialmente pelos seus ótimos cafés e restaurantes das mais variadas cozinhas. Bem, então lá vai o cara, monta todo o projeto, estilo do menu, decide o chef de cozinha, o estilo de atendimento, design dos ambientes e por aí vai.

Para deixar a coisa mais hype, o cara decide convidar um dos escultores mais conceituados da Europa, o francês Xavier Veilhan, que promete fazer algo bem bacana para o seu restaurante. Passam algumas semanas e o tal do Xavier apresenta o esboço da escultura, que simplesmente ocupa os dois andares do restaurante. Ele argumenta que vai ser algo extremamente vanguardista, mas que pra realizar a obra, vai ter que arrebentar o teto do restauarente, detonando a fiação e tubulação do local, e que tudo isso vai custar uns 100 mil euros, fora o cachê.

Parece uma situação bem absurda, mas tem gente que topa.

Xavier VeilhanXavier VeilhanXavier Veilhan

Por uma vida menos ordinária

outubro 20, 2009

Um jovem monolito de André Drahmer

Aos completar trinta anos, você ganhará os olhos duros dos sobreviventes. Só verá sua amada na parte da manhã e da noite, só encontrará seus pais de vinte em vinte dias. E quando seus velhos morrerem, você ganhará um dia de folga para soluçar e gritar que deveria ter ficado mais próximo deles. Sorria, você é um jovem monolito e a vida vai ser pedrada.

O trabalho é uma grande cadeia e você sentirá muito alívio por ter uma. A cadeia engrandece o homem. E o sangue do dinheiro tem poder. Reze. Reze ajoelhado por uma carreira, dê a sua vida por ela. Viva como todo mundo vive, você não é melhor que ninguém. Porque o dinheiro move montanhas, o dinheiro é a igreja que lhe dará o céu. Sorria, você é um jovem monolito e o mundo é uma pedreira. Eles irão moer você todinho.

De brinde, muitos domingos para chorar sua falta de tempo ou operar uma tendinite. Nas terríveis noites de domingo, beba. Beba para conseguir dormir e abraçar mais uma monstruosa segunda-feira. Aquela segunda-feira que deixa cacetes moles e xoxotas secas para sempre. A vida é uma grande seca, mas ninguém sente calor: Nas salas refrigeradas, seus colegas de trabalho fabricam informação e, frios, sonham com o dia dez do próximo mês. Você é o Babaca do Dia Dez, não há como mudar o seu próprio destino. Babaca que acorda assustado, porque ninguém deve atrasar mais de vinte e cinco minutos. Eles descontam em folha e você é refém da folha, do salário, do medo.

Ninguém tem o direito de ser feliz, mas você ganhará a sua esmola de seis feriados por ano. E todos nós vamos enfrentar, juntos, um imenso engarrafamento até a praia. Para fingir que ainda estamos vivos. Para mostrar que ainda somos capazes de sentir prazer. Para tomar um porre de caipirinha sentado em uma cadeirinha de praia. É uma grande solução. E você ainda ganhará quinze dias de férias para consertar a persiana, pagar contas, fazer uma bateria de exames. Ninguém quer morrer do coração, ninguém quer viver de coração. Eu não duvido da sua capacidade de vencer: Lembre disso no primeiro divórcio, no primeiro infarto, no primeiro AVC.

As cartas de Van Gogh e os registros póstumos do Facebook

outubro 19, 2009

Van Gogh - Quarto do Artista

Esses dias caiu nas minhas mão um artigo muito interessante. Sinceramente, eu não me lembro onde foi e muito menos quem escreveu, de qualquer jeito, ele me chamou a atenção para um fato muito importante que simboliza muito bem os tempos  modernos.

A reportagem falava dos pais de um garoto americano que morreu em um acidente de carro, um drama que acontece há muito tempo e em qualquer lugar do mundo. Fatalidades acontecem, o curioso é que hoje em dia quando alguém morre, ele deixa muita coisa registrada -Orkut, Twitter, Facebook, blogs e outras redes sociais que deixam ali nossos pensamentos e sentimentos- o que torna o seu perfil uma espécie de altar virtual. Os pais do rapaz usam a página do Facebook para se sentir mais perto do garoto, leram seus recados, pesquisaram as suas comunidades e aplicativos que ele usava, tudo na tentativa de entender a intimidade do filho, uma maneira desesperada e ao mesmo tempo compreensível de não deixar a pessoa querida ser esquecida. O problema é que o tempo passou e o casal não superou a dor, pois vivia uma ambiguidade. O  filho estava morto no mundo real, mas vivo no virtual.

Senti isso ao receber a notícia da morte uma amiga, não eramos muito próximos, mas mesmo assim senti aquele gosto ruim da perda, que chega amargo na boca e se espalha no estômago assim como um licor ruim. Fiquei muito triste com o que ocorreu e sabe a primeira coisa que eu fiz? Foi acessar a página dela no Orkut, lá vários scraps de amigos e parentes, falando diretamente para ela como se ela ainda estivesse viva, lamentando junto com ela a sua morte, apenas dois scraps foram o suficiente para dar um nó na minha garganta.

O que me leva a fazer diversas perguntas: o que deve ser feito com estes perfis? Existe alguma política dentro do Google por exemplo em relação a conta de uma pessoa que morreu e levou a sua senha com ela; e a família tenha o direito de encerrar o perfil? Você pode perceber que quando o assunto é morte, nada é fácil.

Para linkar o assunto, fiquei sabendo que o Van Gogh Museum disponibilizou todas as cartas escritas e recebidas pelo pintor holandês. Um registro importante não apenas por ele ser um dos maiores artistas da história ou por ele nunca ter vendido um quadro durante a sua vida, mas sim, por deixar registrados seus pensamentos numa época em que as pessoas não deixavam muitas coisas pra trás quando morriam.

Muito diferente de hoje.

O futuro do futuro

setembro 24, 2009

O futuro do futuro


São muitas coisas que podem ser feitas a esta hora, talvez essa hora não, mas quem sabe dormir um pouco e esperar até as oito da manhã,  ou horário que abra a primeiro video locadora, você vai ser o primeiro e provavelmente o único do turno da manhã.

Lá vai ter uma cassetada de filmes que se passam no futuro, tendo em vista que é um video club de qualidade, muitos desse filmes se passam no futuro foram filmados há 20, 30 anos atrás, ou seja, eles estão falando do nosso presente, com uma margem de erro de cinco anos para mais  ou para menos.

O que eles vão ter em comum? Nenhum deles se aproxima, nem por perto, do que é nossa realidade hoje, daí vem você dizer que sobram filmes com presidentes americanos negros; daí eu digo pra você: posso me explicar.

Hollywood pintou um cenário aterrador para nosso futuro, sociedades autoritárias, cidades poluidas, luzes de neon e publicidade excessiva: é geralmente este o cenário quando o Stalonne ou o Arnold desembarcam em algum lugar para encher o pessoal de porrada, a única coisa de boa nessa situação, é claro, são os carros que voam, que ainda não existem na nossa realidade. Entretanto, acho que felizmente a coisa começa caminhar para outro lado, o lado bom da força.

Existe ainda um longo percurso, não podemos dizer que ganhamos o jogo já que o presidente do mundo é afro-descendente, que você tem conta em seis tipos de comunidades sociais e que o slogan salve o planeta está impresso na sua pasta de dente, no papel higiênico, no shampoo, na caixa do leite, no pote de margarina, no seu carro, abaixo do logo do seu posto de gasolina, eles que perfuram milhões de jazidas de petróleo do mundo inteiro, na montadora de carros que é responsável por tolenadas de CO2 jogados na atmosfera, na sua camisinha, no jornal que derruba milhões de árvores para fazer circular uma edição;  na conta de luz que você paga sem saber que milhões de pessoas foram deslocadas e milhões de espécies foram extintas para a construção da usina hidrelétrica, na promoção organizada pelo caminhão do Faustão, na sua operadora de celular e onde mais você conseguir imaginar .

Aonde você for ou o que você consumir, sempre vai ter esse slogan. Mesmo que ele seja pouco repetivo e sem originalidade, talvez, lá no fundo ele signifique algo.

Idiossincrasias

maio 17, 2009

Absolut Obsession

Excelente texto do meu amigo Eduardo Amaral.

Tirar a camiseta antes da calça

Vestir a calça antes da camiseta

Tirar e guardar os tênis amarrados

Cozinhar ouvindo música

Comer vendo TV Dormir logo antes e/ou logo depois do almoço Ler deitado na rede, no verão, depois do almoço

Camiseta toda branca Musica alta dirigindo Celular no bolso direito

Documentos e dinheiro no bolso esquerdo

Beber somente água durante a refeição

Dar um (bom) intervalo entre refeição e sobremesa

Dois travesseiros e duas almofadas pra dormir

Sentar no sofá, com os pés pra cima, logo após o almoço

Esperar muito tempo pra dar a primeira garfada ou mordida

Cabeça inclinada pra direita

Roupa confortável

Perna cruzada

Musica no quarto, na sala e no ouvido

Camiseta curta por cima da comprida

Computador na cama

Shampoo na cabeça – sabonete pelo corpo – agua no corpo – agua na cabeça

Os Melhores Dias das Nossas Vidas

maio 6, 2009

Te conheci exatamente quando estava tocando a melhor música daquela noite “We Walk do Tings Tings”, mesmo que você seja a mulher que não se conhece em uma festa, mas provavelmente nunca te acharia caminhando pela rua com teus sapatos sem salto.

Talvez eu te conhecesse dos meus pensamentos, isso é uma coisa que me faz me sentir bem, apesar que você nunca reparou isso, por isso eu vou caminhar e deixar pra lá.

Me disseram que quando você gosta de alguém, você se também se apaixona pela história dessas pessoas, inclundo as suas maselas e glórias, digo chachorros perdidos, tristes traumas de infância – mas que me tirava do sério é como você comprou meu sonhos,  o melhor deles… viver perto do mar, moletons com capuz nos finais de semanas de frio e muitas,mas muitas garrafas de rum no verão, acompanhados de amigos, sol, dias de músicas perfeitas, é assim que deveria ser o melhor dias das nossas vidas.

Percebi que você colocava a alma naquilo gostava, um sorriso sincero surgia quando eu te convidada para fazer os mais inúteis programas desta vida real, vida essa que deixava existir quando o final de semana chegava, você fica tão bem  usando meus calções e minhas camisas.

Mas tenta entender, que eu estou em uma fase que nada me faz sentir bem.

Jesus no Show Businnes

março 27, 2009

Mais uma noite de aula de religião na PUCRS,  aquela mesma coisa de sempre – o professor ensinado a matéria pela sexissagésima vez na vida, de repente um revoltado levanta a mão, faz uma colacação previsível: a igreja é umas das grandes culpadas da nossa história, a turma se infla, então o professor passa o resto da aula se defendendo dos grandes revolucionários, até que acaba a aula e vai todo mundo fumar seu cigarro e comer seu crossaint.

Jesus por David Lachapelle

Jesus never let me down
You know Jesus used to show me the score
Then they put Jesus in show business
Now it’s hard to get in the door

Extraido de If  God Sen His Angels do U2, banda do mala do Bono Vox.

Foto: A versão gangsta da última ceia ficou por conta de David Lachapelle, em breve falarei mais dele.

Nos meus braços

março 17, 2009

bigalbum4

Encosto meus lábios no rosto dela, deixo eles ali por alguns instantes, enquanto sinto o gosto salgado das suas lágrimas. Vejo seus olhos que ganham uma cor diferente por razão das suas lágrimas, algo entre azul e o verde – não me importo que ela manche o meu terno com o seu rimel borrado, apenas quero que ela fique assim. Pergunto se está tudo bem, ela responde.

– Tá muito gelado.

Vou até seu pé esquerdo e desenrolo a faixa com um cuidado que eu nunca empreguei para nada ao  longo da minha vida, aos poucos surge seu tornozelo vermelho e inchado, que contrasta com seu pé delicado de número 37, dobre mais uma, mais duas vezes  e pronto, não vai mais incomodar.

Melhor? – pergunto. Ela faz um pequeno sinal afirmativo com a cabeça.

Volta a sentar no sófa e ela mancha a última parte limpa do meu terno quando encosta o rosto no meu ombro e, sinceramente, não me importo, apenas quero que ela esteja pra sempre assim, nos meus braços.

Essa noite é o casamento da sua irmã, ela á madrinha e participou de cada detalhe, desde as flores, até o arroz que seria jogado nos noivos,  que deveriam ser Uncle Bens. Tudo seguia a mil maravilhas, quando o champagne entrou em cena, graças a quatro copas ela quebrou seu salto e pronto.

Nenhum ligamento rompido, alguns anti inflamatórios e um pouco de gelo, seus pais, como sempre, encenaram uma tragédia grega, mas já estão mais tranqüilos, agora estão anunciando o apartamento que o casal vai ganhar de presente, e nós aqui fora, nesse silêncio confortável, sentados vendo essas arvores sem folhas balançando preguiçosamente, vendo a lua refletindo sobre esse lago artificial.

Longe de tudo, longe das suas amigas e da guerra silenciosa que existe entre elas, daquele discurso ideal de arquiteta bem sucedida que ela usa quando está em público, longe do que as pessoas desejam pra nós, principalmente longe do que elas acham o que é melhor para nós.

Apenas eu e uma garota mimada, chorosa, mas linda, que tudo que pede é que eu cuide dela essa noite.