No décimo segundo andar do edifício Novo Brasil

Naquela época eu mal percebia, mas na verdade acredito que isso acontece com todo mundo, sério mesmo, a melhor fase que você passa numa casa é quando você acabou de se mudar, sim, quando ainda não existem quadros pendurados nas paredes e sua voz ecoa facilmente pela sala ausente de móveis.

Isso aconteceu comigo há mais ou menos uns quatro anos atrás, quando eu me mudei com a Lú para um apartamento perto do centro, era tão divertido quando nossos amigos vinham nos ajudar a esvaziar as caixas de livros, trocar o sofá de lugar um milhão de vezes, tirar o pó dos pratos e copos enquanto ouviamos The Killers no disc player, as tardes passavam tão rapidamente que logo viravam noite, apenas percebíamos que havíamos passado horas e mais horas na função quando nossas barrigas imploravam por carboidratos. Comíamos sentados em almofadas e colchonetes, sanduíches de atum com pão preto do supermercado e Coca-Cola Light quente, essa era a base da nossa alimentação, sinto muita falta da simplicidade daqueles tempos.

O vinho tinto entrava logo em cena, eu e Lú continuávamos bebendo mesmo quando todo mundo já havia ido embora, ela colocava Nouvelle Vague para tocar, transávamos em todo o apartamento, uma tarefa que não era muito difícil, o apartamento tinha apenas quatro cômodos, igualmente era diferente, era a nossa casa, fator que inclui uma intimidade nunca antes imaginada entre nós, terminávamos exaustos, dividíamos um cigarro e ficávamos conversando até o amanhecer, sobre como foi difícil chegar até ali, o quanto foi complicado o pedido ao tio dela para ser fiador, ter que comprar cama, geladeira e mais um Caminhão do Faustão inteiro em incontáveis prestações, mas não importava, tínhamos uma casa vazia de móveis, mas cheia de sonhos a serem realizados.

Na primeira noite que passamos no apartamento – tínhamos muita pressa em nos mudarmos – dormimos em cima de três edredons, me lembro como se fosse hoje, acordei abraçado a ela com o meu nariz colado ao seu pescoço, sempre foi assim, o cheiro dela para mim era como uma endorfina, um vício, que me acalmava quando eu precisava ficar calmo e me excitava quando você já sabe o que. Me levantei e fui passar um café porque tínhamos mais um longo dia pela frente, deixei ela dormindo, permanecendo a mesma menina que eu havia idealizado quando eu a conheci na faculdade, eu me perguntava como ela fazia isso e coloquei açúcar demais no café enquanto me questionava sobre isso.

E apoiodo no parapeito da sacada eu via uma cidade que nascia para trabalhar, rostos carrancudos que foram tirados de suas camas quentes para trabalhar nesse domingo nublado, esperando o ônibus sem pensar em nada ou pensando em tudo ao mesmo tempo. O café fazia seu efeito e eu também despertava, me dando conta que talvez tenhamos nos mudado para a região mais barulhenta e poluída da cidade, pagando um valor quase 150% a mais do que o devido. Aos poucos ela vai acordando, vejo os seus olhos abrindo contra sua vontade, esticando seus braços e pernas em todas direções, para finalmente encontrar meu olhar escondido atrás da minha xícara, e sorrir, o sorriso mais lindo que já vi na minha vida.

Foi aí que eu cheguei a conclusão de que mesmo estando apenas no décimo segundo andar do Edíficio Novo Brasil, eu me encontrava no topo do mundo.

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Uma resposta to “No décimo segundo andar do edifício Novo Brasil”

  1. Anderson Segall Says:

    Foda o texto!Muito bom.
    Espero que um dia eu viva um pouco disso aí…parece bom rs..só falta ela.
    Esse texto combina com ‘Samba e amor’ do Chico Buarque.
    Vlw.

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